Quanto sentimento há em mim?

Reflexões para lidar com as crianças da Educação Infantil 


 
Como explicar aos nossos filhos o que está acontecendo? 

 Essa foi a primeira reflexão feita por todos nós, depois de começarmos a entender, instantaneamente, esse momento de exceção. 

 Em meio a tantos números, estatísticas e informações médicas e científicas em busca de soluções e respostas há o sentimento. Quanto sentimento há em nós? Na criança transparecem as emoções. E nós, que para ela parecemos firmes e capazes de apresentar respostas, agora nos sentimos inseguros, frente a um espelho de verdades, fraquezas e anseios. É um momento de reclusão. E aqui estamos, os adultos, tentando acertar na certeza que já não temos, assegurar o que não necessariamente sabemos.

Em busca de respostas, alguns caminhos são possíveis e imediatos, seja optar por vídeos que nos auxiliam, contar uma história da realidade atual revestida com palavras compreendidas pelas crianças, fazer um desenho sobre esse novo vírus, mostrar a animação da turma da Mônica, Show da Luna, música do Arnaldo Antunes cantada pela Palavra Cantada em que ele incentiva a todos que lavem as mãos. São muitos os caminhos possíveis, mais amenos ou mais diretos, a depender da escolha da família. Mas, em algum momento, nós dividimos com eles uma realidade nada branda: não haverá aula por um tempo, não podemos sair de casa e nem ver nossos amigos. E, além disso, não sabemos até quando. Não há respostas e sim perguntas. 

Se é dolorido e pouco compreensível por nós, adultos cobertos por informações de todas as partes, imagine por crianças de até 6 anos. 

Quando lidamos com crianças pequenas e optamos por colocá-las na Escola Construtivista, sabemos que, por mais que façamos experiências, conversas ou mostremos imagens para que entendam algo tão complexo como a pandemia atual, nós optamos por uma escola em que a presença é primordial.

 Procuramos uma educação em que se legitima a convivência, a brincadeira, a troca. Nossa cultura, afinal, é a do contato físico, dos sentimentos externados em forma de fortes abraços, beijos, brincadeiras corporais. Que beleza é acompanhar a espontaneidade na infância em que respeitamos o contato como um dos meios principais da aprendizagem!

 Na educação Infantil, isso é praticado presencialmente. Aprendemos com o outro todos os dias, observando, copiando as ações, trocando conhecimento. 

Escolhemos a escola como meio de interação com as crianças, o amigo presente diariamente, a rotina de atividades propostas pelo educador.

Nessa fase excepcional, porém, o momento exige reclusão e acolhimento. É importante praticar o diálogo franco com os filhos, relatar sentimentos de incertezas, tudo bem. O que importa é trocar com a criança, pois o que eles querem não são necessariamente respostas. Há crianças que verbalizam, elaboram perguntas, saídas, soluções. Assim como alguns adultos verbalizam sentimentos, outros utilizam a arte, o plantio, a culinária, o grito, a música, a dança e tantas outras formas de linguagem. O importante é colocar para fora, perceber o outro, dialogar utilizando a ferramenta de linguagem que o faça sentir mais a vontade. 

O papel principal agora da escola é de acolher, lembrar que somos presentes. Seja na música enviada que cantávamos todos os dias, a deliciosa receita que a professora fez com as crianças, agora enviada na plataforma digital, a roda diária em que só queríamos saber “como foi seu final de semana”. De alguma forma, estamos juntos. Porque o importante agora é o sentimento de pertencimento. Ele aquece o dia, retoma bons momentos, nos lembra que somos um grupo. 

Na Educação Infantil, o processo é valioso, a maneira como fizemos, o local preparado para a atividade proposta, montar o espaço para o desenrolar da atividade, separar um tempo no dia só para isso. Se em casa não fez todas as propostas enviadas pela escola, tudo bem. Faça aos poucos, o que é possível. Não é interação pedagógica, pode deixar, isso a escola faz e nós voltaremos. É só um momento de travessia. 

O que esperamos das famílias é que se utilizem das ferramentas propostas pela escola como um apoio, que a criança se sinta confortada, se alegre ao ver seus amigos na tela, sua professora em um vídeo, ao escutar aquela história de que tanto gosta. 

 É precioso esse momento, pois há uma troca direta com cada família. Quando voltarmos, cada um de vocês poderá cantar junto com seus filhos aquela música que sempre quis saber e nunca entendeu bem a letra. Caso tenham sido adaptados, passado esse período, os espaços da casa poderão permanecer como estão, pois, se tornaram mais adequados e produtivo para as crianças. De forma significativa, continuaremos a parceria Escola-Família. É um momento de refletirmos e qualificarmos essa parceria.

Paulo Freire diz que “o homem pode refletir sobre si mesmo e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer a autorreflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação”.  
Somos inacabados, em constante busca. E a criança retoma em nós a procura de resgatarmos a importância das perguntas e não das respostas bem elaboradas. A importância do processo e não do produto final. A importância de parar e perguntar: “Quanto sentimento há em mim agora? ” Identificá-los, percebê-los é a principal aprendizagem. O contato com cada emoção. E quem melhor que nossos filhos para alcançá-las, mostrá-las, dizê-las? Aprendemos com eles, não é mesmo?

 Voltaremos mais fortes. 

 Deixo aqui meu abraço virtual e até breve! 

Ana F. Barros

 08/04/2020 Texto escrito no início da quarentena

Postagens mais visitadas deste blog

Reflexões sobre o papel do Educador em tempos atuais

O lobo mau não pode ser invisível