O lobo mau não pode ser invisível
Ao receber de muitos colegas educadores e pais o artigo de Julián Fuks, “ Sobre a tristeza das crianças e a urgência de priorizar as escolas”, a primeira coisa que me marcou, foi a clareza do bom e velho ponto de vista. Sugiro que, ao iniciar essa leitura, você pare e reflita: “Quem sou eu no artigo do escritor? ”.
Aqui, falarei apenas da
reflexão trazida, deixando de lado a desigualdade social e tantas outras
realidades do país, que se tornam indisfarçáveis com a chegada da pandemia.
Ousadia a minha,
educadora e mãe, citar o artigo do escritor, mas não é tempo de ficar em
silêncio, como ele mesmo diz. É um momento de “discutir questões importantes”.
Quando falamos de nossos
filhos, da cautela para levá-los a um coletivo como a escola, pensamos: “Se ocorrer
o pior em minha família, a baixa probabilidade de morte entre as crianças passará a 100% no
núcleo que frequento; melhor esperar a vacina. “
Quando citamos
educadores, esgotados de reinventar uma situação que deixa de ser provisória,
pensamos em pontos como segurança no trabalho, responsabilidade com o aluno,
acolhida afetiva com pouco contato.
Quando falamos em
educação, em uma reflexão anterior à da volta às aulas, é preciso informar,
trocar, acolher as famílias, crianças e educadores. Ter clareza da
responsabilidade com o outro. Bom senso, às vezes tão pouco praticado.
É um momento oportuno
para refletir sobre a responsabilidade com os pares, sobre comunidades
educacionais, coletivos, a minha casa versus o espaço do outro, passar a dar
lugar a necessidades de todos.
Me sensibiliza ler Fuks,
quando diz que à noite sua filha de 3 anos pergunta sobre a morte. Meu
filho de 5 anos também se deparou com a morte nua e crua. Para além de
explicações que citam fases, angústias de certos ciclos e idades, eles
enfrentam na primeira infância a tristeza em massa, sem respostas dos pais, que
sempre sabem o que dizer. O lobo mau não pode ser invisível, estar no ar, ser
imbatível ao combate de super-heróis.
Me pego com um pequeno de
5 anos me submetendo a inúmeras perguntas, que antes envolviam hipóteses sobre
a Terra, sistema solar, dinossauros. Agora, ainda com grande simpatia, me
pergunta sobre quando as pessoas morrem, se podemos morrer com um pano no
rosto, se nos veremos após a morte.
E o educador, como fica?
Ele será prioridade em hospitais e atendimentos de saúde? A instituição
escolar, que perdeu tantos alunos e está sobrevivendo com dificuldade em 2020,
terá como estruturar uma rede de apoio ao profissional? O professor está em um
bom momento para sair de casa? Faz parte
do grupo de risco?
Convido-os a imaginar uma
suposta volta às aulas, com todo o seu Estado em Fase 3- amarela. Pelo menos
seis meses após o início do isolamento, a criança retornará à escola e não
poderá, para readaptar-se, contar com a presença de seu responsável, aquele
que, principalmente agora, é seu porto seguro nestes tempos sombrios. Os pais
não deverão entrar nas escolas para evitar aglomeração. Dividir lanche, nem
pensar. Aproximar-se do amigo, aquele tão citado em casa, também não. O
educador não poderá usar máscara, fica irreconhecível, a criança estranha,
chora, mas como fazer? Como receber nossas crianças sem a acolhida, o calor da
referência que é o professor, sem o abraço saudoso?
Isso sem citar ideias
tidas para incentivar a distância. Por exemplo, asinhas usadas em crianças pelos chineses, tipo de fantasia, para estabelecer espaço entre elas e
bambolês no chão para limitar a área de cada um. Saídas pensadas em outras culturas, por
adultos. Aqui, será um grande incentivo à criatividade infantil, acredite.
Criamos nossos filhos para, ao ver um objeto no chão, logo pensar: é um lago de
jacarés e dentro daquele pequeno espaço circular todos devem ficar juntos e
seguros. Coelhinho sai da toca, é um perigo, não poderá mais sair. É insuperável a criatividade de uma
criança, e, no entanto, teremos que dar um limite a coisas que sempre
estimulamos. Que contradição...
A discussão é, sim, sobre
educação. Mas como a rigos antecede a pandemia, falaremos de formar cidadãos, com repertório para questionar um país que finalmente discute sobre o papel da escola. A situação extrema leva ao reconhecimento da genuína importância do professor.
Infelizmente não temos
respostas, só perguntas e possibilidades de pequenas soluções em cada núcleo,
seja o da sua casa, de seus amigos ou dentro de um limite que a família julgue
seguro e sadio física e mentalmente.
Mas vamos retomar o quase
óbvio: e é chegada a hora de falar de altruísmo, de nos colocar no lugar do
outro. Nos apropriarmos, educadores, do lugar importante que temos na formação
de pessoas, que pode fazer a diferença em um futuro próximo. E, pais,
entendermos que nossos filhos fazem parte de uma geração já marcada em
capítulos de livros de história. Isso não deixará de ocorrer; já somos.
É preciso dialogar,
pensar para onde vamos, juntos, pois esse barco é único. Pensar nas saídas
imediatas possíveis, nas soluções encontradas em países com baixo índice de
contágio, essa realidade tão distante da nossa. Vamos juntos pensar, repensar e
olhar para o outro. Afinal, quem é você diante dessa realidade? Qual seu papel
reflexivo em benefício de todos?
Ana F. Barros
(Veja mais em
https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2020/08/15/sobre-a-tristeza-das-criancas-e-a-urgencia-de-priorizar-as-escolas.htm)

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